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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Instalada oficialmente a Academia Gloriense de Letras, a 1ª do interior sergipano

Membros Fundadores da AGL - Edson Bastos, Francisco Vasconcelos, Ancelmo Aragão, Jorge Henrique, Verônica Sales, Euvaldo Lima, Gileide Barbosa e Ramon Diego (Foto: Alexandre Pingo)
Solenidade foi marcada por posse e diplomação dos membros fundadores

“Moveu-nos o anseio de cultivar e desenvolver as letras de nossa terra, de preservar sua memória cultural e de ver democratizado e ampliado o acesso aos bens tangíveis e intangíveis produzidos em nossa língua”, afirmou o poeta Jorge Henrique Vieira, Presidente da Academia Gloriense de Letras, em seu discurso na solenidade de instalação da AGL.

O evento aconteceu na noite desta quarta-feira, 12, na Escola Estadual Padre Leon Gregório, patrono-mor do Sodalício gloriense, na cidade de Nossa Senhora da Glória, com as presenças de autoridades, intelectuais e familiares dos acadêmicos.

Diplomados e empossados os oito membros fundadores da AGL, das 40 cadeiras disponíveis, assumiram a 1ª diretoria executiva para o biênio 2012/2014, que será assim composta: Presidente – Jorge Henrique Vieira Santos; Vice-Presidente – Francisco das Chagas Vasconcelos; Secretário Geral - Edson Magalhães Bastos Júnior; Secretário Adjunto - Ramon Diego Câmara Rocha; Diretor Financeiro – José Ancelmo Aragão; Diretora Financeira Adjunta – Maria Verônica Santana Sales; Diretor de Comunicação e Intercâmbio – Euvaldo Lima dos Reis; Diretora de Projetos e Eventos – Gileide Barbosa de Souza Santos. 

A conferência inaugural da AGL foi proferida pelo Vice-Presidente do Conselho Estadual de Cultura e membro da Academia Sergipana de Letras, professor Luiz Fernando Ribeiro Soutelo, que ressaltou a importância das academias de letras para o desenvolvimento de uma nação. De acordo com o Professor Soutelo, a Academia Gloriense de Letras que tem como lema Ad gloriam per litteras, “será, com toda certeza, um ponto de irradiação cultural no sertão sergipano e um exemplo para outras regiões do Estado”. 

Para o prefeito eleito de Nossa Senhora da Glória, Chico do Correio, a Academia Gloriense de Letras surge em um momento muito importante para a sociedade do médio e alto sertão. “A AGL vem reforçar e dinamizar a cultura do povo de Glória, do médio e do alto sertão. É uma entidade de extrema importância para a evolução cultural do nosso município, e por isso, o poder público irá oferecer o apoio necessário para que essa instituição se fortaleça ainda mais”, enfatizou Chico. 

Prestigiaram a solenidade, a prefeita de Nossa Senhora da Glória, Luana Michele, o reitor da Universidade Tiradentes, professor Jouberto Uchôa, o representante da Academia Sergipana de Letras, Domingos Pascoal, a desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho, Maria das Graças Melo, o representante da Academia Sergipana de Ciências Contábeis, Sildeno Dantas, o Emérito Professor da Universidade Federal de Sergipe, José Araújo Filho, membros de movimentos culturais, escritores, professores, artistas, entre outras personalidades do segmento. 

Jornalista Gileide Barbosa - DRT/SE 847

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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Glória de leitura e poesia

No último dia 13, os garotos da Associação Sertão na Arte promoveram em Nossa Senhora da Glória a segunda edição do Sarau Sertão na Arte. Para enriquecer e ampliar o evento, firmaram uma parceria com a Biblioteca Pública Epifânio Dória (BPED) e realizaram também, no município, a primeira Roda de Leituras, integrando Glória ao projeto que vem sendo desenvolvido há quatro anos, com muito sucesso, na capital sergipana.

Rosineide Santana, Ramon Diego e Nina Sampaio


A Roda de Leitura aconteceu durante a tarde, das 14h às 16h, na Câmara Municipal, sob a coordenação da professora Maria Rosineide Santana (UFS), que fez a mediação do debate sobre o conto “No meio do Mundo”, de Antônio Carlos Viana. O evento também contou com a participação de Nina Sampaio, mestranda em Letras da UFS, que coordenou o debate sobre trechos selecionados do romance “A Sétima Vez”, de Alina Paim. A tônica das discussões recaiu sobre aspectos estéticos e de estilo dos textos lidos. Enfatizou-se também a importância de se dar relevo à produção literária do Estado e se discutiu ainda os atuais índices positivos desse mercado editorial em Sergipe.


Estavam presentes na Roda de Leitura, além da Diretora da BPED, Sônia Carvalho, estudantes e professores locais, os poetas Edivan Santos (Aleixo), Lilian Farias, Assuero Cardoso Barbosa (Lagarto) e o grande expoente da cultura afro-sergipana Severo D´Acelino. Esses dois últimos brindaram o público gloriense com a apresentação e o lançamento de suas obras durante o II Sarau Sertão na Arte, que aconteceu à noite, das 19h30 às 23h, no Espaço Cultural Sertão na Arte.

Jorge Henrique, Assuero Cardoso, Severo D´Acelino e Ramon Diego

Glória mais uma vez ganhou ares bastante diferenciados. Durante o dia, a prosa de autores sergipanos consagrados tornou-se o centro de todas as suas atenções e, à noite, a poesia dos poetas de Sergipe encheu sua a cidade de ritmos e imagens. Mais uma vez, a Associação Sertão na Arte mostrou-se uma entidade atuante na cena cultural do sertão sergipano e despertou em todos aquela famosa vontade de “quero mais”.

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gloriense é diplomado pela Academia de Letras de Teófilo Otoni - MG

O poeta gloriense Jorge Henrique Vieira Santos foi diplomado como Membro Correspondente da Academia de Letras de Teófilo Otoni - ALTO

Na sessão de 28 de agosto de 2012, por indicação do Prof. Wilson Colares da Costa, Secretário Geral, Jorge Henrique foi eleito pela unanimidade dos votos dos membros do Conselho Concultivo e passou a integrar o corpo acadêmico daquela digna instituição literária de Minas Gerais.

Como não poderia comparecer à Solenidade de Posse, conforme prevê o parágrafo único do artigo 17 do Regimento Interno daquela Entidade, Jorge Henrique foi empossado por ato solene da Presidente, Sra. Amenaide Bandeira Rodrigues, em 1º de setembro de 2012, e seu diploma acadêmico foi remetido a ele pelos correios.


A ALTO foi fundada oficialmente em 20 de dezembro de 2002, com os objetivos de: 
  • realizar estudos e pesquisas na área da literatura local e regional; 
  • promover e incentivar a cultura através da realização de conferências, exposições, concursos, cursos e outras atividades de natureza cultural; 
  • coletar, pesquisar, elaborar e divulgar estudos e informações de cunho cultural, relacionados aos intereses da entidade, bem como congregar os esforços daqueles que se interessam pelo processo cultural, o cultivo e divulgação da língua e literatura nacionais.
Desde então, realiza, anualmente, uma Feira de Livros de autores do município de Teófilo Otoni, MG, e a Noite do Café-com-Letras, evento que conta com recital de poesias, lançamento da Revista Café-com-Letras, que traz trabalhos de acadêmicos e convidados especiais. A entidade ainda oferece a autores locais revisão e análise de obras a serem publicadas, bem como realiza noites de autógrafos. Mantém a Biblioteca Comunitária D. Didinha e está em fase de organização do Núcleo de Documentação de Literatura Isaura Caminhas Fasciani. Ainda em parceria com a União Estudantil de Teófilo Otoni, realiza também, anualmente, o Concurso de Textos Dissertativos, destinado a alunos do Ensimo Médio da rede pública e privada do município.

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Arte a serviço da dignidade humana

Aracaju, 20 de setembro de 2012.


Carta aberta ao Boris

Senhor apresentador,

Aracaju de uma forma geral é uma cidade arejada e limpa. Há nesta cidade quem dê pito em quem a suje e igualmente há o voluntário cuidando com carinho de um cantinho de uma praça, como respaldo ao relevante trabalho das pessoas admiráveis que cuidam da limpeza pública.

Admiráveis sim, porque, qualquer pessoa, sente apreço por quem seja considerado de alta relevância social. Neste ensejo, pode-se acreditar que, entre os brasileiros mais admiradores do senhor, Boris, estavam muitos trabalhadores, e, entre estes, GARIS e MARGARIDAS.

O Brasil pôde acompanhar os processos movidos por GARIS contra a sua pessoa, cujos desfechos foram favoráveis ao senhor. É compreensível, a nossa justiça é reconhecida pelos próprios juristas como monetarista, classista e carrega os mesmos cacoetes da sociedade. Com o seu gesto e suas palavras, ainda que o senhor tenha pedido desculpas, continua o eco da ofensiva. O senhor deu a entender que, no Brasil deveriam existir castas e a casta inferior, sequer, deveria se dirigir à outra acima para lhe desejar felicidade.

As instituições se preocupam com hierarquia a propósito da disciplina. O seu comentário, "Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo na escala do trabalho", no entanto, sinaliza que, numa sociedade conservadora, a hierarquia é usada muito mais para a discriminação e humilhação, que alimentam o preconceito e o ódio, do que servir a propósitos nobres.

Mas, a labuta prossegue e as Margaridas e os Garis mais conscientes do que nunca, saberão como agir. Eles são simples e sinceros e o bom humor os impede de ser rancorosos. Não perdem a dignidade nem a ternura. São estes fatores que os levam a educar os filhos e a tocar a vida.

Nesta cidade, capital do Estado de Sergipe, Sr Boris, a admiração pelo trabalho das Margaridas e dos Garis levou a principal empresa empregadora desta gente humilde, valorosa e honrável, a absorver uma ideia gestada em parceria com a Empresa Municipal de Serviços Urbanos e passada pela prancheta de um escultor: um monumento com a altura de cinco metros para elevar simbólico e prestigiosamente quem parece ser invisível aos olhos da sociedade.

Este monumento erguido às Margaridas e aos Garis pode também ser entendido como gesto de desagravo à sua classificação de cunho preconceituoso. Nestes tempos de democracia com determinação para banir o preconceito e incluir os indivíduos socialmente, ninguém deve passar vexame dizendo se sentir superior àqueles que limpam a sua sujeira.

Vivas às mulheres e aos homens que transformam o seu trabalho em dignidade e esperança para todos. Vivas às Margaridas e aos Garis.


Antônio da Cruz
Artista Plástico e Cenógrafo

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domingo, 16 de setembro de 2012

Semeando letras no sertão


Excetuando-se poucos nomes e obras, relativamente significativos, o município de Nossa Senhora da Glória, no sertão sergipano, não tem, ainda, o que se poderia chamar de tradição literária. Fato relevante o bastante para motivar a criação de uma instituição cultural nesta localidade, cuja atuação não se desse no sentido de consolidar uma tradição, mas, pelo contrário, de estimular práticas de letramento literário que culminem no desenvolvimento desta.

Essa ideia, que já vinha sendo discutida timidamente por um grupo de amigos – poetas e promotores culturais – com certa expressividade na comunidade gloriense, ganhou novo fôlego com a visita ao município do senhor Evando dos Santos, mais conhecido como “homem-livro”, no início do mês de junho do ano em curso. Em sua profícua conversa com esses agentes culturais, ele relatou suas conquistas, realizações e projetos. Descreveu, sobretudo, as ações de incentivo à leitura e de valorização da cultura, que vem promovendo à frente da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, que fundou na Vila da Penha (RJ). 

Seu entusiasmo e sua determinação contagiaram a todos. O “homem-livro” ressaltou que a constituição de uma academia de letras em Glória seria um passo relevante para o fomento da cultura literária local. Diferentemente das academias tradicionais, ela atuaria como instituição cultural que pudesse não apenas estimular a leitura, mas, sobretudo, criar uma atmosfera e práticas propícias ao surgimento de novos escritores.

A semente lançada por ele representou o impulso que faltava para o início da ação. O pequeno grupo de literatos, com grande estusiasmo, passou a se reunir regularmente, dessa vez com um propósito definido: agir, para que as mudanças desejadas acontecessem. Foi assim que se iniciaram as discussões sobre a convergência de propósitos desses agentes culturais e sobre a importância que uma instituição de natureza lítero-cultural terá tanto para o desenvolvimento da cultura local, como do sertão sergipano, considerando-se a importância que Nossa Senhora da Glória ocupa no cenário regional.

Como fruto dessa ação, o grupo decidiu fundar a Academia Gloriense de Letras – AGL que terá, inicialmente, uma abrangência local, podendo, em função de seu desenvolvimento, ampliar seu raio de ação para se tornar uma academia de letras do Alto Sertão. Quanto à composição de membros, decidiu-se que a AGL iniciaria suas atividades com oito membros apenas e, progressivamente, admitirá novos acadêmicos em seu quadro, até integralizar quarenta membros efetivos e vinte correspondentes. 

A primeira Diretoria Executiva, que conduzirá suas atividades no biênio 2012/2014, ficou assim definida : 

Presidente – Jorge Henrique Vieira Santos; 
Vice-Presidente – Francisco das Chagas Vasconcelos; 
Secretário Geral – Edson Magalhães Bastos Júnior; 
Secretário Adjunto – Ramon Diego Câmara Rocha; 
Diretor Financeiro – José Ancelmo Aragão; 
Diretora Financeira Adjunta – Maria Verônica Santana Sales; 
Diretor de Comunicação e Intercâmbio – Euvaldo Lima dos Reis e 
Diretora de Projetos e Eventos – Gileide Barbosa de Souza Santos.

Fonte: Assessoria de imprensa da AGL.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Tentação no deserto

Entre as pernas de
Madalena
tinha umas pedras.
Tinha umas pedras
entre as pernas de
Madalena.
Nunca me esquecerei
da embaraçosa cena.
As pedras entre as pernas de
Madalena.
 
IARA VIEIRA em: O Coro da Serpente. Coleção Milênio Mulheres Emergentes. Belo Horizonte: Mulheres Emergentes Edições Alternativas, 2001, p. 28.

Iara Vieira (1949 - 2003)
Sergipana de Aracaju, Iara Viera estreou na poesia em 1977 com o livro Ruínas. Além desse, sua obra poética encontra-se reunida nos seguintes livros: Interiores (1982), Esses tempos ad/versos (1984), A fome do paraíso (1994) e O coro da serpente (2001).

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domingo, 29 de julho de 2012

No caminho com Maiakóvski

[...]

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na Segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

[...]

Esse famoso fragmento do poema "No caminho com Maiakóvski", de autoria do poeta Eduardo Alves da Costa, ao contrário do que muitos imaginam, não é de Maiakóvski. (leia sobre a polêmica).

clique aqui para ler o poema inteiro

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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Caso do Vestido

Carlos Drummond de Andrade
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós, 

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro, 

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado, 

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio, 

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido, 

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
 
Texto extraído do livro "
Nova Reunião - 19 Livros de Poesia", José Olympio Editora - 1985, pág. 157.

Ouça na voz do poeta:
 
Caso do vestido (Carlos Drummond de Andrade

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terça-feira, 17 de julho de 2012

O Gênio da Humanidade


Sou eu quem assiste às lutas,
Que dentro d’alma se dão,
Quem sonda todas as grutas
Profundas do coração:
Quis ver dos céus o segredo;
Rebelde, sobre um rochedo
Cravado, fui Prometeu;
Tive sede do infinito,
Gênio, feliz ou maldito,
A Humanidade sou eu.

Ergo o braço, aceno aos ares,
E o céu se azulando vai;
Estendo a mão sobre os mares,
E os mares dizem: “passai!…”
Satisfazendo ao anelo
Do bom, do grande e do belo,
Todas as formas tomei:
Com Homero fui poeta,
Com Isaías profeta,
Com Alexandre fui rei.

Ouvi-me: venho de longe,
Sou guerreiro e sou pastor;
As minhas barbas de monge
Têm seis mil anos de dor:
Entrei por todas as portas
Das grandes cidades mortas,
Aos bafos do meu corcel,
E ainda sinto os ressábios
Dos beijos que dei nos lábios
Da prostituta Babel.

E vi Pentápolis nua,
Que não corava de mim,
Dizendo ao sol: “eu sou tua,
Beija-me… queima-me assim!”
E dentro havia risadas
De cinco irmãs abraçadas
Em voluptuoso furor…
Ânsias de febre e loucura,
Chiando em polpas de alvura,
Lábios em brasas de amor!…

Travei-me em lutas imensas;
Por vezes, cansado e nu,
Gritei ao céu: “em que pensas?”
Ao mar: “de que choras tu?”
Caminho… e tudo o que faço
Derramo sobre o regaço
Da história, que é minha irmã:
Chamam-me Byron ou Goethe,
Na fronte do meu ginete
Brilha a estrela da manhã.

E no meu canto solene
Vibra a ira do Senhor:
Na vida, nesse perene
Crepúsculo interior,
O ímpio diz: “anoitece!”
O justo diz: “amanhece!”
Vão ambos na sua fé!…
E às tempestades que abalam
As crenças d’alma, que estalam,
Só eu resisto de pé!…

De Deus ao sutil ouvido
Eu sou como que um tropel,
E a natureza um ruído
Das abelhas com seu mel,
Das flores com seu orvalho,
Dos moços com seu trabalho
De santa e nobre ambição,
De pensamentos que voam,
De gritos d’alma, que ecoam
No fundo do coração!…

Tobias Barreto, 1866

Ouça na voz do poeta Assuero Cardoso Barbosa

 
o genio da humanidade (Tobias Barreto)

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Ignorabimus

Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.

Dizem que o Cristo, o filho do Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro,
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!

Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo
Não deixou de provar o duro freio
Da tirania, e da miséria o travo,

Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...

Tobias Barreto, 1880.


ignorabimus (Tobias Barreto)

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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Profundamente

Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam, errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

(BANDEIRA, Manuel. Antologia Poética. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 2001, p. 81)


*Ouça o poema declamado por Paulo Auntran no CD 4 séculos de Poesia:

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terça-feira, 26 de junho de 2012

Véio no Velho Mundo

Véio – De Nossa Senhora da Glória para a Fundação Cartier, em Paris
Exposição fica em cartaz até 21 de outubro na capital francesa


Por Sílvio Oliveira

Quem visitar Paris até o período de 21 de outubro deste ano poderá conferir a exposição coletiva do artista sergipano gloriense Cícero Alves dos Santos – o Véio (65). A exposição Histoires de Voir - Show and Tell está em cartaz na Fundação Cartier e traz, além dele, mais 40 artistas da chamada arte de raiz de diversos países, a exemplo da Índia, Congo, Haiti, México e Japão. A entrada custa 9€ e é aberta ao público das 11h às 19h (horário de Paris), exceto às segundas-feiras.

As obras em cartaz na capital francesa são do próprio acervo da Fundação Cartier e do Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro. Em visita ao Brasil no início de 2012, o diretor da Fundação, Hervè Chandes, conheceu a exposição “Teimosia da Imaginação”, em São Paulo (SP), que expunha obras de dez artistas brasileiros considerados de arte popular, entre eles Véio.

Hervè Chandes selecionou peças presentes na exposição, tornando o Brasil grande destaque do evento francês."Cerca de 70% das obras são de brasileiros", diz Germana Monte-Mór, curadora da Mostra.

De acordo com a curadora, a exposição vai além das categorias desconcertantes da história da arte, e as obras expostas transmitem uma sensação de franqueza, liberdade e frescor de invenção, enquanto ao mesmo tempo levantam a questão de como se pode definir a arte contemporânea hoje, revelando artistas tidos como de periferia e os colocando no centro do palco.

Em Paris, o sergipano se junta às criações de Antônio de Dedé, Alcides Pereira dos Santos, Aurelino, Izabel Mendes da Cunha, Zé Bezerra, José Antônio da Silva, Neves Torres, Nilson Pimenta e Nino, assim como desenhos indígenas da região do Amazonas.

Véio para o mundo

A penúltima exposição de Véio no Brasil aconteceu na Galeria Estação, em São Paulo, em 2010, e foi organizada pelo Instituto do Imaginário do Povo Brasileiro, retratando e valorizando as tradições do semiárido do país. No início de 2012, o artista participou da exposição “Teimosia da Imaginação”, organizada pelo Instituto Tomie Ohtake, com curadoria de Germana Monte-Mór, também em São Paulo.
Mais uma vez a exposição ganha forma, desta vez no Rio de Janeiro, e foi aberta na última quinta-feira (14), no Paço Imperial com a presença do artista sergipano. Teimosia da Imaginação deverá percorrer outros estados brasileiros.

Além das exposições, o visitante também assiste aos documentários sobre a criação das peças e sobre os artistas e tem a oportunidade de também observar toda a arte em livro, ou seja, reúne exposição, documentário e livro.

Véio trabalha com troncos “fechados” e “abertos”, que são inteiramente talhados para ganharem representação. Entre as mais famosas, estão mobiliários, esculturas e estátuas que retratam as histórias do povo sertanejo, com seus misticismos, lendas e lutas relacionadas à natureza.

Assim como muitos de seus conterrâneos, o escultor recebeu seu nome em homenagem a Padre Cícero. Já o apelido surgiu porque ele gostava muito de escutar as conversas das pessoas mais velhas. Autodidata, Véio admirava a cultura popular desde criança, quando começou a executar suas primeiras peças em cera de abelha. A relação intensa com seu meio fez o artista criar, ao lado de seu ateliê, localizado em Nossa Senhora da Glória, um “Museu do Sertão”.

Muitos dos objetos recolhidos no museu testemunham o embate do homem do campo com a natureza. São chapéus de couro, utensílios domésticos, máquinas rústicas, roupas e acessórios que fazem parte da vida do sertanejo.Véio tem um acervo de mais de 17 mil peças de diferentes materiais.  A maior delas chega a 10 metros de altura.

Fotos: Arquivo de família

FONTE: Notícias F5 News - Sergipe

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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Construindo leitores

“Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão”
.
O operário em Construção
(Vinícius de Moraes, 1956)
No poema em epígrafe, o poeta Vinícius de Moraes descreve a trajetória de um operário – um pedreiro – que, a partir de sua própria condição existencial inicia um processo de tomada de consciência de seu lugar dentro do perverso modelo de produção econômica e social que o oprime. Esse pedreiro, à medida que vai construindo sua consciência política e emergindo da mais absoluta alienação, começa a desvelar os mecanismos opressores da sociedade capitalista e assume uma postura de resistência, por meio de palavras e ações. Diz “não” à opressão, não se curva às violências que lhe são infligidas por causa de sua atitude e decide incentivar os demais operários a se emanciparem.

Hoje venho falar a vocês de um operário como esse, o pedreiro Evando Santos, que esteve em Nossa Senhora da Glória – SE entre os dias 30 de maio e 02 de junho, e que, entre outras atividades, proferiu uma palestra na câmara de vereadores para um pequeno público de grande entusiasmo.

Natural de Aquidabã – SE e radicado no Rio de Janeiro há 37 anos, Evando viveu imerso num mundo sem letras ao longo de sua infância e adolescência, só aprendeu a ler aos 18 anos. Desde então, apaixonou-se pela palavra escrita e, assim como empilhava tijolos no canteiro de obras onde cumpria a lida diária, passou também a empilhar em sua casa os volumes dos inúmeros livros que lia.


Empilhando tijolos e erguendo casas, devorando letras e acumulando livros, Evando disse “sim” ao conhecimento e se foi construindo um ávido leitor dos clássicos e um aficionado bibliófilo. Com suor, cimento e letras, fez-se homem emancipado, consciente, e, reconhecendo a transformação que os livros produziram em sua vida, decidiu agir: transformou a própria casa numa biblioteca comunitária. Resistindo a todas as circunstâncias que o pressionavam a resignar-se à condição imposta pelo senso comum, o pedreiro decidiu construir leitores e se dedicou firmemente a essa ideia. 

Resultados de sua ação?

Dentre os inúmeros prêmios, medalhas e títulos que recebeu em todo o país, foi presenteado por Oscar Niemeyer com o projeto arquitetônico da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, cuja construção foi financiada pelo BNDES com R$ 650.000,00. A biblioteca tem atualmente um acervo de 52.000 títulos. O homem-livro, como ficou conhecido internacionalmente, tornou-se tema de dois documentários - premiados, respectivamente, no Festival de Brasília e na 12ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico do Rio de Janeiro. Sua vida inspirou o escritor italiano Remo Rapino a escrever o livro “Um quintal de palavras”. Com sua determinação inabalável, Evando ajudou a fundar 37 bibliotecas comunitárias pelo Brasil, chegando, também, a enviar 4.000 livros para Angola.

Da mesma forma que o operário do poema de Vinícius, este aqui, olhando para as próprias mãos (que sempre ofertam livros), percebeu que não há no mundo coisa que seja mais bela, pois também descobriu que em suas mãos está o poder de transformar o mundo, de emancipar o homem, de tornar a vida melhor.


Foi essa a semente que ele veio lançar em terras glorienses. Em sua profícua conversa com alguns poetas da terra, relatou suas conquistas, realizações e projetos. Descreveu, sobretudo, as ações de incentivo à leitura e de valorização da cultura local, que vem promovendo à frente da biblioteca que fundou na Vila da Penha. Seu entusiasmo e determinação contagiaram a todos.  


Dizia Hannah Arendt que não são as ideias que provocam mudanças no mundo, mas as ações. Assim, a semente está lançada, agora é o momento de agirmos, para que as mudanças aconteçam. Um fruto já começou a germinar: a possibilidade de se criar uma Academia Gloriense de Letras, que também possa atuar construindo leitores e, consequentemente, novos escritores na Capital do Sertão.

Jorge Henrique Vieira Santos

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sexta-feira, 25 de maio de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sertão, música e poesia

Poetas Ramon Diego, Ancelmo Aragão e Jorge Henrique
Foto: Jeferson Melo (Crivo)

Na manhã de sábado, dia 14, a cidade de Nossa Senhora da Glória, no sertão sergipano, acordou com ares diferentes. Já havia prenúncios de que aquela seria uma data marcada pela singularidade, a notícia já corria nas redes sociais, já se propagava pelo boca a boca, já se anunciava a todos os ouvidos. Isso, no entanto, não impediu a surpresa das pessoas que, ao caminharem pela cidade, indo e vindo da feira livre, encontravam versos por toda parte.

Foto: Jeferson Melo (Crivo)
Lemos Mário Quintana nas paredes, vimos Manoel de Barros pendurado em árvores, tropeçamos na pedra de Drummond em pleno calçadão e esbarramos distraidamente com a poesia de Leminski pela rua. Sob a forma de papel, a poesia espalhava-se aos quatro cantos. Sob a forma de luz, projetava-se nas paredes de prédios. Glória acordou poesia. E seu despertar preparava a todos para a grande noite do SARAU.

Naquela noite, embalados ao violão clássico, muitos jovens de várias idades embriagaram-se de poesia. O espaço aconchegante e tranquilo da antiga sede dos escoteiros vestiu-se de poemas para acolher pessoas ávidas de arte. “A arte existe porque a vida não basta” (Ferreira Gullar) e todos buscavam ali esse algo mais.

Foto: Jeferson Melo (Crivo)
O I SARAU “SERTÃO NA ARTE” provou que é possível promover atividades culturais prazerosas e enriquecedoras quando pessoas dispostas se somam em torno de boas ideias. Provou também que, em meio a todo o bombardeio midiático promotor de uma cultura do comércio e do consumo, muitos ainda buscam alternativas de lazer, entretenimento e convívio. A poesia, ao contrário do que alguns pensam, permanece viva na alma humana, com todo o seu magnífico poder de aproximar pessoas e de provocar prazer.

Jorge Henrique

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domingo, 27 de novembro de 2011

Laranja estranha

Fábio Adiron*
Mariana era louca por laranjas. Não qualquer laranja, era louca por laranja pera.

Era tão fanática que costumava comprar no atacado. Toda semana ía ao Ceasa e comprava um saco de laranja pera.

Delas fazia suco, saladas de frutas de uma fruta só, as chupava puras. Fazia doces, bolos e tortas.

Nem sempre todas as laranjas vinham perfeitas, algumas chegavam mais secas, outras um pouco amassadas. Mesmo assim Mariana aproveitava todas, de uma forma ou de outra.

Até o dia em que, no meio do seu saco de laranjas pera veio um exemplar de laranja bahia. Para muitos seria apenas mais uma laranja, não para Mariana que ficou perplexa e confusa com um tipo de laranja diferente.

A casca era mais fina, o tamanho maior, o suco com teores diferentes de açúcar e de ácido cítrico.Ela não estava preparada para isso. Não sabia nem por onde começar. Fez uma busca na Internet sobre a tal da laranja estranha. Só encontrou informações sobre os aspectos fenotípicos do citro. Isso não ajudava.

Começou a ligar para amigas. O máximo que descobriu foi que essas laranjas não tinham sementes. Pior foi ter de ouvir da melhor amiga que era uma laranja, e laranjas são laranjas. Que diferença isso ia fazer?

Concluiu que não teria outra alternativa a não ser partir em busca de especialistas. Como iria descascar aquela pele mais fina? Se eram mais doces, como procederia no açúcar da sua famosa compota de laranja? 

Os gomos maiores não enroscariam no seu processador?

Descobriu várias pessoas que se dedicavam ao estudo e manuseio de laranjas bahia. Uma mulher que era descascologista, com doutorado em bahias. Um agrônomo que tratava de distúrbios de desenvolvimento de citros e até um chef compoteiro que tinha uma instituição dedicada ao desenvolvimento da tal laranja.

Pensou em mandar seu exemplar de laranja bahia para um desses especialistas. Mariana, no entanto, era uma mulher persistente, não poderia admitir que tinha sido derrubada por uma laranja.

Matriculou-se num curso à distância, de capacitação em laranjas. Na primeira aula descobriu que a bahia era só uma das dezenas de espécies de citrus sinensis: Lima, Westin , Rubi, Valencia, Hamlim e Kinkan. O curso não lhe ensinou o que fazer com as diferentes laranjas, mas abriu seus olhos para todo um mundo diverso do que ela conhecia. Também constatou que só com prática de uso de tanta variedade é que ela descobriria como tirar o melhor de cada um dos tipos.

Não perdeu seu amor antigo pela laranja pera, mas descobriu que a vida era muito mais interessante quando as laranjas se misturavam. Era possível fazer sucos usando combinações de frutos mais ácidos com outros mais doces e, até mesmo enriquecer seu bolo de laranja com calda de uma laranja diferente.

Empolgadas partiu para o estudo de tangerinas, depois limões e até mesmo grapefruit.

E, assim como fazia com a laranja pera, Mariana nunca desperdiçou nenhum dos seus cítricos.

Uma verdadeira mestra.

Descrição da imagem: uma laranja bahia ainda presa no galho da laranjeira.

*Fábio Adiron é graduado em Comunicação Social e especializado em Marketing pela FAAP e pós-graduado em Economia de Empresas pela FGV. Autodenomina-se "xiita da inclusão" e mantém o blog "Inclusão: ampla, geral e irrestrita", fonte deste texto.

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