segunda-feira, 4 de junho de 2012

Construindo leitores

“Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão”
.
O operário em Construção
(Vinícius de Moraes, 1956)
No poema em epígrafe, o poeta Vinícius de Moraes descreve a trajetória de um operário – um pedreiro – que, a partir de sua própria condição existencial inicia um processo de tomada de consciência de seu lugar dentro do perverso modelo de produção econômica e social que o oprime. Esse pedreiro, à medida que vai construindo sua consciência política e emergindo da mais absoluta alienação, começa a desvelar os mecanismos opressores da sociedade capitalista e assume uma postura de resistência, por meio de palavras e ações. Diz “não” à opressão, não se curva às violências que lhe são infligidas por causa de sua atitude e decide incentivar os demais operários a se emanciparem.

Hoje venho falar a vocês de um operário como esse, o pedreiro Evando Santos, que esteve em Nossa Senhora da Glória – SE entre os dias 30 de maio e 02 de junho, e que, entre outras atividades, proferiu uma palestra na câmara de vereadores para um pequeno público de grande entusiasmo.

Natural de Aquidabã – SE e radicado no Rio de Janeiro há 37 anos, Evando viveu imerso num mundo sem letras ao longo de sua infância e adolescência, só aprendeu a ler aos 18 anos. Desde então, apaixonou-se pela palavra escrita e, assim como empilhava tijolos no canteiro de obras onde cumpria a lida diária, passou também a empilhar em sua casa os volumes dos inúmeros livros que lia.


Empilhando tijolos e erguendo casas, devorando letras e acumulando livros, Evando disse “sim” ao conhecimento e se foi construindo um ávido leitor dos clássicos e um aficionado bibliófilo. Com suor, cimento e letras, fez-se homem emancipado, consciente, e, reconhecendo a transformação que os livros produziram em sua vida, decidiu agir: transformou a própria casa numa biblioteca comunitária. Resistindo a todas as circunstâncias que o pressionavam a resignar-se à condição imposta pelo senso comum, o pedreiro decidiu construir leitores e se dedicou firmemente a essa ideia. 

Resultados de sua ação?

Dentre os inúmeros prêmios, medalhas e títulos que recebeu em todo o país, foi presenteado por Oscar Niemeyer com o projeto arquitetônico da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, cuja construção foi financiada pelo BNDES com R$ 650.000,00. A biblioteca tem atualmente um acervo de 52.000 títulos. O homem-livro, como ficou conhecido internacionalmente, tornou-se tema de dois documentários - premiados, respectivamente, no Festival de Brasília e na 12ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico do Rio de Janeiro. Sua vida inspirou o escritor italiano Remo Rapino a escrever o livro “Um quintal de palavras”. Com sua determinação inabalável, Evando ajudou a fundar 37 bibliotecas comunitárias pelo Brasil, chegando, também, a enviar 4.000 livros para Angola.

Da mesma forma que o operário do poema de Vinícius, este aqui, olhando para as próprias mãos (que sempre ofertam livros), percebeu que não há no mundo coisa que seja mais bela, pois também descobriu que em suas mãos está o poder de transformar o mundo, de emancipar o homem, de tornar a vida melhor.


Foi essa a semente que ele veio lançar em terras glorienses. Em sua profícua conversa com alguns poetas da terra, relatou suas conquistas, realizações e projetos. Descreveu, sobretudo, as ações de incentivo à leitura e de valorização da cultura local, que vem promovendo à frente da biblioteca que fundou na Vila da Penha. Seu entusiasmo e determinação contagiaram a todos.  


Dizia Hannah Arendt que não são as ideias que provocam mudanças no mundo, mas as ações. Assim, a semente está lançada, agora é o momento de agirmos, para que as mudanças aconteçam. Um fruto já começou a germinar: a possibilidade de se criar uma Academia Gloriense de Letras, que também possa atuar construindo leitores e, consequentemente, novos escritores na Capital do Sertão.

Jorge Henrique Vieira Santos

4 comentários:

  1. Que fantástico, Jorge! Esses atos me fazem ainda crer que é possível melhorar o mundo, no meio de tantos para atrapalharem uma eleveção espiritual humana através de coisas fecundas e imprescindíveis como a leitura. Abraços. Paz e bem.

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    1. Pois é, José Cláudio, nossas ações fazem a diferença e podem transformar o mundo.

      Veja só, é um homem simples que decide dividir com as pessoas seu amor pela leitura, arregaça as mangas e vai à luta.

      É um exemplo a ser seguido.

      Um grande abraço,

      Jorge Henrique

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  2. Poeta,sou de Poço Redondo. Filho do escritor e pesquisador Alcino Alves Costa, também sou poeta, cronista e romancista, além de exercer a profissão advocatícia na capital sergipana. No meu blograngel-sertao.blogspot.com encontrará minha produção literária.
    Preciso obter mais informações sobre a AGL, a academia de letras do alto sertão. Preciso de seu e-mail para maiores contatos. No meu blog encontrará endereços, telefones e e-mail. Um abraço.

    Rangel Alves da Costa

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  3. Olá, poeta,

    Feliz por receber sua mensagem.

    Bom saber que segue os passos paternos e trilha os caminhos da escrita.

    Breve farei visita ao seu blog.

    Quanto à nossa recém-criada academia, foi registrada às 12h12 em 12/09/2012. Como pode ver, apenas o mês não concorreu para a coincidência "cabalística" de seu nascimento, de forma que pretendemos realizar nossa sessão solene de instalação em 12/12/2012. Penso que seja um sinal de que bons ventos acenam para a nossa trajetória, enquanto instituição.

    Necessariamente, ainda estamos "organizando a casa" e só iniciaremos efetivamente nossas atividades a partir de 2013. Até lá, certamente, estreitaremos laços e estabeleceremos maiores contatos.

    Forte abraço.

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